Decolonialidade: O Grito da Independência do Adolescente

Atualizado: Nov 11

Ser adolescente nunca foi tarefa fácil. Mesmo em tempos imemoriais, os jovens que adentravam nesta fase conturbada da vida, precisavam passar por diversas provas e testes para enfim serem considerados adultos. Os ritos de passagem, que hoje nas cidades brasileiras são mais relacionados às meninas com a festa de debutante, eram praticados como uma maneira de que o adolescente testasse seus limites para então ser aceito na comunidade como um ser capaz de contribuir com o grupo em que estava inserido.


Garoto adolescente apreensivo com o celular na mão
O Drama do Adolescente com a Internet

Os tempos agora são outros, e os adolescentes passam por outros tipos de testes. Provas vestibulares, as primeiras relações sexuais em uma sociedade que não conversa abertamente sobre sexualidade, gravidez na adolescência, uso de álcool e drogas, teste de condução, fake news, racismo, gordofobia, LGBTfobia, inserção em uma sociedade extremamente consumista e competitiva, auto-imagem distorcida, vergonha das origens culturais e geográficas, entre outros. São tantos os desafios sofridos por pessoas tão jovens, ainda em formação de suas filosofias, caráter, ideologias, que fica praticamente enlouquecedor amadurecer em meio a tanta informação e desinformação.


Nos últimos anos, desde a eleição do atual governo, os ataques à diversidade e as subjetividades das pessoas têm sido cruel, desumano e intenso, por parte daqueles que deveriam zelar pelo bem-estar de todos os cidadãos do país. Ao mesmo tempo em que, com o advento da internet, os adolescentes passaram a ter acesso a discussões complexas na palma da mão, eles se encontram de certa maneira colonizados e oprimidos por este discurso retrógrado e opressor reproduzido pelo governo, que insiste em colocar todas as pessoas em uma pequena caixinha. Todos sabemos, contudo, que a adolescência é uma fase de rebeldia necessária para não cairmos nos padrões de comportamento das antigas gerações que criaram ou reproduziram essas amarras. Assim sendo não resta outra alternativa ao adolescente do que gritar pela sua independência, uma segunda independência, de uma colonização de pensamento que insiste em nos limitar a uma realidade que não inclui, mas sim exclui pessoas.


Ao mesmo tempo em que, com o advento da internet, os adolescentes passaram a ter acesso a discussões complexas na palma da mão, eles se encontram de certa maneira colonizados e oprimidos por este discurso retrógrado e opressor reproduzido pelo governo, que insiste em colocar todas as pessoas em uma pequena caixinha.

Esta independência não é fácil e pode ser um processo um tanto quanto doloroso. Porém, transformador e empoderador. O adolescente, à medida que vai se conhecendo e se reconhecendo, passa a desenvolver uma melhor auto-estima e a se amar mais. Como eu disse, esse processo não é simples e raras às vezes onde uma pessoa tão jovem encontra toda a maturidade e força necessária para começar a ser sua versão mais autêntica ainda na adolescência. Este processo, geralmente, pode levar muitos e muitos anos, e seguir por toda a vida. O que é muito positivo, porque mostra que a vida está em constante transformação e movimento. O meu próprio caso é um exemplo disso, que apesar de ter estado consciente sobre a minha sexualidade desde muito jovem, apenas comecei a me relacionar com garotos no final do ensino médio e de realmente me ver feliz como um homem gay nos meados dos meus vinte anos, quando percebi que a minha sexualidade era apenas uma pequena parte de mim, e que quando percebi a beleza nesta pequena parte segui desenvolvendo as outras peças que formam esse conjunto que eu tenho orgulho de já ser e de tudo que ainda quero vir a ser. Também não é incomum eu conversar com amigos, por exemplo, que na infância e adolescência não tinham orgulho de sua cor e etnia, e hoje veem a profunda beleza que a sua ancestralidade carrega. É de uma felicidade tremenda ter essas pessoas em minha vida e poder compartilhar essas histórias de amor-próprio e empoderamento com meus alunos.


LER: O que é 'counseling' e como ele é fundamental na trajetória do adolescente?


Pessoas diversas dançando, curtindo e sorrindo
Festa de Dança

Muitas são as amarras, porém, que nos são impostas durante a vida, desde muito cedo temos que lidar com elas, quando, por exemplo, aos garotos é dito que só podem usar azul e brincar com carrinhos e bolas, e às meninas que só lhes é permitido usar rosa e brincar com bonecas e panelinhas. A partir disso os papéis na sociedade já são definidos por outras pessoas, e os seres em desenvolvimento começam a buscar maneiras de às vezes se enquadrar nas regras pré-definidas, ou de se libertar e viver outras realidades possíveis. Outra amarra que passa despercebida por tão naturalizada, é a de repulsa pelo Brasil. A exploração dos pontos negativos do país são tão amplamente divulgados na mídia, que fica difícil o adolescente enxergar a beleza das paisagens, da nossa fauna e flora, da nossa arte, da nossa culinária, das nossas religiosidades, dos nossos povos, da nossa gente. A mídia vive insistindo que o 'povo brasileiro' é o problema, um discurso profundamente violento principalmente contra os grupos marginalizados e violentados há centenas de anos, como os indígenas, afro-brasileiros, LGBTs, mulheres, pessoas com deficiência e outros.


A partir dessa leitura equivocada do nosso país, o adolescente que estuda uma língua estrangeira, mais comumente o inglês, passa a querer viver a realidade do outro, a ser o outro, e muitas escolas de idiomas têm reforçado esta visão há décadas. De alguns anos para cá, contudo, com mais professores conscientes (grupo que eu me incluo) não apenas da potência que o nome Brasil carrega, mas também desconstruídos nas questões de gênero, sexualidade, raça, positividade corporal, ajudamos os jovens a enxergar o nosso país, não mais pela ótica midiática sensacionalista, que insiste em fazer que nos odiemos, mas sim por uma ótima realista, que reconhece que temos problemas graves que precisam ser tratados, mas não fatalista onde tudo é péssimo, e não temos saída. Sempre há saída. Assim sendo somos professores dos sonhos possíveis, que trabalhamos por uma ótica utópica que reconhece as belezas do nosso país e todo o potencial que podemos alcançar, deixando então de ouvir aos urubus e passando a ouvir aos passarinhos que cantam nos parques, coloridos, livres e alegres. Desta maneira, mesmo os jovens que viajem a turismo, façam um intercâmbio ou mesmo decidam viver em outro país, o façam por uma decisão tomada conscientemente a partir de reflexões e planejamentos, e quando estiverem neste país receptivo, independente de qual, fale com carinho de suas origens aos amigos que cruzarem seus caminhos.


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Para que as sociedades possam florescer verdadeiramente, é preciso romper com as correntes que nos prendem a padrões impostos pelas instituições de poder que regem a vida comunitária. A adolescência é a fase de transição que carrega grande potência para a exploração e os questionamentos que levarão o jovem a viver plenamente, passando a se desenvolver a um adulto seguro de si, que saiba o real valor da palavra respeito, quando se relacionar com outras pessoas, sabendo que não apenas os outros, mas ele também, é um ser excepcionalmente único, singular e belo.

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