Meu aluno compôs uma música inspirado em minhas aulas

Atualizado: Nov 11

Língua e cultura são coisas indissociáveis. É simplesmente impossível um professor ensinar um idioma sem cativar o aluno lhe apresentando os lugares onde ele é falado, a cultura daquela região, sua gente, suas crenças, suas danças e sua culinária. O inglês é bem-sucedido na sua expansão, obviamente por motivos econômicos. Mas não apenas isso. Países anglófonos, em especial os Estados Unidos, têm muita expressividade no entretenimento, culinária e viagens, logo pessoas do mundo todo assistem filmes de Hollywood, certamente já comeram um hambúrguer e sonham em visitar a Disney ou Nova Iorque. Assim sendo, professores de inglês se desejarem ficar apenas na superfície, nem precisam se dar ao trabalho de estudar a cultura dos países anglófonos, visto que a cultura mais comercial já está amplamente difundida em todo o mundo. Obviamente que professores que, como eu, adoram e sabem a importância de falar sobre cultura, ir mais a fundo nos países é muito mais interessante.


Prédios de tijolo à vista e montanhas, paisagem tipicamente colombiana.
Medelín, Antioquia. Eleita a cidade mais inovadora do mundo pelo Wall Street Journal.

Com outras línguas esse trabalho é um pouco mais complexo, pois as culturas tendem a ser menos óbvias, e não raramente os habitantes dos países sentem até mesmo certa 'vergonha' das suas origens geográficas. Quem nunca ouviu um brasileiro maldizendo o seu país? Não é uma situação tão incomum, certo? Verdade é que todos os países têm suas belezas e seus problemas, e meu trabalho como professor de idiomas é fazer com que meus alunos vejam o lado positivo, focando assim nas soluções, nas utopias, ao invés dos problemas. Esta visão otimista gerou um resultado muito positivo quando o meu aluno Diego Rodríguez, colombiano e músico, escreveu uma canção para exaltar o seu país dedicando a inspiração para a letra às minhas aulas.


"Es mi tierra mi nación

Vuela libre, hay pasión

Hay un pueblo luchados

No ser libre es su prisión


Alma cumbia corazón

Correr libre es tu misión

Nada te detiene ya

Solo grita liberdad"



D'alejo, Steve x Owen

El Power de mi Tierra


Crianças dançando e tocando instrumentos musicais colombianos.
Grupo juvenil de cumbia. Os garotos geralmente são os gaiteiros.

Nós, latino-americanos temos histórias muito parecidas, com o genocídio dos povos originários e escravização dos africanos chegados a essas terras. Ainda hoje, mais de 500 anos depois da invasão das terras americanas, a mídia segue culpabilizando esses mesmos grupos pelos problemas dos nossos países, mesmo depois de toda a violência e exclusão sofrida por eles. Quando mudamos a chave e percebemos que o real problema não é as pessoas, mas sim a desigualdade e o racismo, passamos a olhar para a nossa gente com mais carinho e empatia, e também reconhecer que partes belíssimas da nossa cultura são heranças diretas dos indígenas e africanos, como a cumbia, citada pelo Diego na música, um ritmo afro-indígena colombiano que seria comparável ao samba brasileiro, em sentido de importância histórica, musical e de unificação da alma de um povo.


Esta abordagem afetiva em meu trabalho, resultado direto dos meus estudos da obra de Paulo Freire, tem se mostrado muito efetiva, não apenas com os adultos mas também com os meus adolescentes, que eu chamo carinhosamente de 'adolês'. A educação é uma eterna construção, mas também desconstrução. É preciso desaprender muitas coisas. Nos é ensinado desde a infância apenas os estereótipos dos países, que geralmente são extremamente ofensivos e negativos. Não traz uma real mudança no olhar do aluno simplesmente dizer que esses estereótipos não são a única história sobre os países, como diz a escritora e pensadora nigeriana Chimamanda Adichie, mas também precisamos mostrar esse outro lado dos países, neste caso os nossos vizinhos, onde há música, sabor, hospitalidade, amizade, paisagens de tirar o fôlego (praia, neve, floresta, montanha, deserto), e uma infinidade de outras qualidades que eu poderia passar uma tarde inteira escrevendo que nem caberia em um artigo.


LER: Decolonialidade: O Grito da Independência do Adolescente


Tem uma máxima que eu defendo fortemente com a minha filosofia de educador de idiomas: "Nós não aprendemos um idioma para ser o outro, nós o fazemos para sermos nós mesmos tendo a habilidade de nos comunicar em outros idiomas." Mas para o jovem e o adulto se sentir bem sendo ele mesmo, ele precisa transpassar as barreiras ilusórias midiáticas que tendem a nos reduzir a meros índices de violência, e ver o lado belo e transformador que reside em nossa gente, que luta e trabalha a cada dia por dias melhores.



Montanhas e palmeiras extremamente altas.
Vale de Cocora, Quindío. Estas são as palmeiras de cera, a árvore nacional da Colômbia.


E o que é ser latino-americano afinal? Ser latino-americano é simplesmente ser um sopão de herança cultural, ancestral, sanguínea, geográfica de vários povos do mundo que já estavam aqui há milhares de anos, ou que aqui chegaram de alguma maneira. Ser latino-americano é por si só, de alguma maneira, ser o outro. Mas ainda que sejamos compostos do outro, dos outros, não deixamos de ser nós mesmos, brasileiros, colombianos, argentinos, bolivianos, paraguaios, costarriquenhos, salvadorenhos, mexicanos, povos misturados que precisam passar para a próxima fase e ser 'juntos e misturados'.



Assista abaixo o videoclipe de 'El Power de mi Tierra'



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