O que tá rolando na MPB?

Atualizado: Nov 11

Um país continental e profundamente complexo como o Brasil precisava de uma música que não apenas explicasse, mas também traduzisse a alma da nossa gente. É assim que surge a MPB, aquela que nem sempre é destaque nos programas de tevê, que sofre um bocado para ganhar seu espaço no mercado fonográfico, porém que mesmo assim é adorada por grande parte da população brasileira. E se acaso, ao pensar na MPB você esteja visualizando João Gilberto sentado tocando o seu violão com sua doce voz, ou ainda Elis Regina cantando músicas de alto teor político, compostas por Chico Buarque, Gilberto Gil e Edu Lobo, bom, você não está errado. Mas como veremos no artigo a MPB hoje é considerada muito mais do que isso.


Cantora brasileira de mpb tecnobrega forró pop performando com vestido cor-de-rosa e luvas pretas em um palco
Cantora e compositora recifense Duda Beat

SEMPRE O NORDESTE


É simplesmente impossível falar de música brasileira e não citar o nordeste. Esta região do Brasil tem sido, ao longo de toda a história do nosso país, uma espécie de Meca da música popular. Nesta região nasceram alguns dos nossos ritmos mais emblemáticos, como o samba, o forró, o coco, baião, axé, frevo, maracatu, xaxado, samba de roda, arrocha e outros. Se alguns são mais regionais e outros mais populares, isso não impede que todos sejam apreciados em todos os estados brasileiros. As terras de Gil, Caetano, Gal, Bethânia e Tom Zé continuam gerando músicos assombrosamente talentosos, como é o caso da pernambucana Duda Beat. Com seu jeito ao mesmo tempo autêntico e atrevido, Duda tem levado muita irreverência para seus videoclipes muito bem produzidos, assim como aos palcos onde pisa, com o sua MPB um tanto pop, misturando os ritmos nacionais com batidas eletrônicas. Esta mistura é uma característica importante de muitos dentre os artistas citados neste artigo.


Assim como foram nomeados grandes baianos tropicalistas acima (com exceção de Bethânia), as novas gerações dessas famílias, símbolos da música brasileira, seguem nutrindo bons frutos para a nossa MPB, como é o caso da banda Gilsons, composta por um filho e dois netos de Gilberto Gil. O trio tem como referências artistas como, obviamente o próprio Gilberto Gil, Caetano Veloso, Novos Baianos, Chico Buarque, Daniela Mercury, Jorge Ben, Paralamas do Sucesso, Olodum, Timbalada entre outros. Certamente estas influências são refletidas no primeiro disco da banda, Várias Queixas. Mantendo viva a música baiana, com a proteção e guia da espiritalidade afro-brasileira, os Gilsons têm não apenas cativado o Brasil com suas melodias e letras acalentadoras, mas também com tomadas maravilhosas da Bahia e de sua gente.


Três cantores baianos em trajes brancos e poses que transmitem paz
José Gil, Francisco Gil e João Gil. Foto: Jessica Leal/Divulgação Gilsons.

Os filhos de Caetano Veloso também seguem os passos do pai e apresentam a delicadeza e poética típica do pai, independente do ritmo que propõem se aventurar. Os shows feitos pelos irmãos juntos ao pai certamente são daqueles que ficarão na memória afetiva de muitos apreciadores da música brasileira, não apenas pela qualidade musical mas também pelo simbólicos que foram.


Outras artistas que agitam a cena soteropolitana são Luedji Luna e Mariene de Castro. As duas baianas mantém viva a música afro-brasileira. Com forte influência das religiões de matriz africana, as cantoras têm tornado cada vez mais popular o samba e outros ritmos negros entre as novas gerações. Os vídeos musicais de ambas artistas são um deslumbre.


Cantora baiana com roupa marrom e cabelo black e tranças no rosto
Luedji Luna em imagem promocional para o vídeo de Acalanto

O canal de humor Porta dos Fundos, um dos maiores do Brasil, deu notoriedade a muitos artistas da comédia, entre eles Fábio Porchat e Gregório Duvivier. Uma das comediantes, no entanto, passou a ter maior notoriedade a partir da sua carreira musical, falo da recifense Clarice Falcão. Com uma voz suave, letras descontraídas e com simples acordes, a cantora traz um frescor à cena da nova MPB com um estilo que certamente encontra influência em Nara Leão e cantoras da música francesa, como Carla Bruni e Coralie Clément.


Os artistas até agora citados deixam claro a riqueza e a sofisticação da música nordestina atual. Porém, se talvez não sejam tão sofisticadas as letras e os arranjos musicais dos Barões da Pisadinha e de João Gomes, eles são os verdadeiros reis da internet. O sucesso estrondoso dos cantores de forró, tecnobrega, vaquejada e piseiro zerou a internet com milhões de visualizações no YouTube e reproduções no Spotify, mostrando sempre que a música popular não tem a ver necessariamente com erudição. O que faz a música brasileira ser popular tem muito mais relação com o seu alcance na sociedade, e este feito é diretamente associado ao funk carioca, ao sertanejo e a esses ritmos mencionados acima, rompendo então as fronteiras impostas principalmente por críticos musicais que tentam definir a MPB e colocá-la em uma caixa.


A MINHA NAÇÃO SE CHAMA CARIMBÓ


Surpreendentemente a região Norte continua sendo pouco conhecida pelo restante do país, inclusive entre jovens, sejam eles de classe média ou periferia, de grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro. Quem não se lembra quando um integrante daquela banda composta por quatro jovens paulistanos por ignorância comentou sobre tocar no estado do Amazonas: "Queria tocar no Amazonas. Imagina, tocar no meio do mato, não sei nem como é o público de lá. Não sei nem se tem gente civilizada, civilização." Ao invés de criticar o jovem, prefiro problematizar a educação brasileira que é bastante eurocêntrica e não expande a visão dos nossos jovens sobre nosso país. Existem espaços culturais como o SESC e coletivos de cultura popular dentro da cidade, no entando, que ajudam a introduzir outros ritmos aos nossos jovens, e eu colo na deles, afinal sou educador, não é mesmo? Então cola aqui, Thomas, e vamos ver o que tá rolando lá na região norte.


Sem dúvida a cena musical nortista é representada principalmente pelo Pará. Além do açaí, o estado exporta muita música, como é o exemplo do calypso (quem nunca viu a Joelma batendo cabelo na tevê?), do tecnobrega que agita as festas de aparelhagem do estado e claro, o ritmo que define o Pará, o carimbó, tendo como sua principal representante a lendária Dona Onete. Esta senhora, hoje com 82 anos, segue mantendo o ritmo vivo e contribuindo com diversos artistas do Pará e de outras partes do Brasil.


Uma das artistas mais conhecidas hoje do Pará é Gaby Amarantos, que além de cantora apresenta o programa Saia Justa no canal GNT junto a Pitty, Rita Von Hunty, Astrid Fontenelle e Mônica Martelli. A cantora alcançou enorme projeção nacional com seu primeiro disco, levando o tecnobrega para o sudeste e para a televisão. Hoje Gaby segue na ativa e já fez colaborações com Duda Beat, Jaloo (outro cantor paraense), Liniker e Potyguara Bardo.


No lado do carimbó e da guitarrada os artistas mais destacados da atualidade são Aíla, Lia Sophia e Felipe Cordeiro. Ambos já fizeram colaborações com Dona Onete, exaltando a rainha do carimbó e mantendo o ritmo vivo.


A CENA MUSICAL DRAG


A arte drag nunca esteve tão em alta. Depois do lançamento do reality show RuPaul's Drag Race em 2009, apresentado pela drag queen estadunidense RuPaul, esta manifestação artística tem estado presente nos mais diversos lares e também incentivado jovens a adultos de todo mundo a investir nessa carreira. Ainda que as artistas dessa competição se tornem mundialmente famosas após participar do programa, nenhuma delas, nem mesmo a própria apresentadora, são tão exitosas na cena musical quanto as drags brasileiras.


Que o Brasil é um país de contradições nós já sabemos, logo as drags, em sua maioria homens homossexuais, fazerem tanto sucesso no país que mais comete crimes contra a comunidade LGBT, não é tão surpreendente assim. Com letras de empoderamento, amor e liberdade sexual, as drag queens participam frequentemente de programas de TV e recebem milhões de visualizações no YouTube e outras milhões de reproduções no Spotify.


Artista drag queen com peruca e maquiagem recebendo um prêmio musical
Pabllo Vittar recebendo o prêmio da MTV EMA

Pabllo Vittar é a drag mais famosa do Brasil e a mais vista e reproduzida em todo o mundo. Maranhense criada no Pará, Pabllo agita as pistas de dança com ritmos pop recheados de influências regionais brasileiras, como o forró, o calypso e o tecbobrega. Sempre transmitindo mensagens de amor e aceitação, ela vem rompendo fronteiras e empoderando jovens que estão tratando de entender a sua sexualidade e não sabem como encontrar a força para viver de maneira autêntica. Pabllo também foi a primeira Drag Queen a vencer um prêmio na MTV EMA.


Glória Groove é outro nome de peso na arte drag. Com um estilo mais periférico, Glória investe mais em música preta, desde o R&B até o funk, levando o público a ter uma catarse seja no seu show ou mesmo em uma balada. Seu novo vídeo, A Queda, lançado em outubro, aborda o tema do cancelamento que ela mesmo sofre e que muitas outras artistas sofrem por algum deslize que cometeram. Contraditoriamente, uma música sobre a sua queda se tornou um dos seus maiores sucessos, mostrando que o cancelamento é geralmente incitado por uma minoria, e é pelas mãoes dessa minoria que as violências tendem a começar.


AS TRANS NOS HOLOFOTES


Nunca na história deste país as pessoas LGBTQIA+ tiveram tanta representatividade nas artes. Como mencionado acima, as contradições brasileiras se afirmam mais uma vez quando as mulheres trans tem conquistado papéis de destaque na música.


As paulistas Linn da Quebrada e Liniker, ambas mulheres trans e negras, garantiram seu espaço na cena musical com suas canções contestadoras e poéticas, de empoderamento, sororidade com outras mulheres, ancestralidade e cura. Esta representatividade cruzou fronteiras e mulheres trans e travestis de todo o mundo se veem nas letras e vídeos das artistas.


Também outra banda formada em São Paulo, As Baías, composta por Assucena Assucena e Raquel Virgínia (ambas mulheres trans) e Rafael Acerbi (homem cis) agitam o cenário nacional da música. Os três se conheceram no curso de história da USP (Universidade de São Paulo) e se juntaram para fundar este trio que mescla MPB, Rock e R&B com influências que vão de Gal Costa e o Clube da Esquina até Amy Winehouse. Em 2019 o grupo foi indicado ao Grammy Latino pelo disco Tarântula, sendo a primeira vez que cantoras trans concorreram a um prêmio na cerimônia.


O QUE MAIS ROLA NA CENA 'TRADICIONAL'


Convencionou-se associar a MPB a voz e violão, além de alguns outros instrumentos que traduzem a nossa brasilidade. Artistas desses primórdios são Chico Buarque, João Gilberto, Elis Regina entre outros. Com a chegada dos tropicalistas nos anos 60 essa visão mudou completamente dando espaço a muito mais experimentação. Contudo, há artistas que seguem essa forma considerada tradicional da MPB, ainda que façam experimentações.


Silva, Marcelo Jeneci e Castello Branco são três dos rapazes dessa onda. Silva, ainda que tenha começado em uma pegada mais voz e violão, se tornou em algo como o rei dos feats, misturando a sua voz doce com a de artistas dos mais variados estilos, como Ludmila, Anitta, Ivete Sangalo, Fernanda Takai e Criolo. O Jeneci, o percursor entre os três, lançou o seu primeiro EP em 2010, quando a internet não estava ainda acostumada com a ideia de ter aquela MPB mais tradicional tocando na MTV e sendo repetidamente reproduzida no YouTube. O músico foi realmente um estouro, e de certa forma abriu caminho para os artistas que viriam depois, como é o caso de Castello Branco, que lançou seu primeiro disco três anos depois também em uma pegada mais voz e violão e com traços muito particulares de sua poética e de sua musicalidade.


Desenho simples de uma garota com cabelos encaracolados ao vendo e roupa verde e vermelha
Capa do disco efêmera, de Tulipa Ruiz

Assim como os garotos, também surgiram na mesma época talentosíssimas cantoras e compositoras, como é o caso de Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata e Céu. Tulipa, assim como Jeneci, pode ser considerada uma das percursoras dessa vertente da MPB. Com uma voz extremamente doce e aguda, a musicista santista enche nosso coração de carinho com seus doces versos. A matogrossense Vanessa da Mata é um dos símbolos mais icônicos dessa nova geração. Com seus cabelos afro sempre soltos, a cantora encanta corações com suas composições românticas e também provocadoras. De São Paulo, cantora Céu é um tanto mais experimental e já subvertia essa MPB que começava a reaparecer com letras e vídeo clipes instigantes.



E O SAMBA?


Certamente o samba segue tendo relevância na cena musical brasileira e muitos artistas novos surgiram para não deixá-lo morrer: Maria Rita, Teresa Cristina, Diogo Nogueira, Roberta Sá, Mart'nalia e Paula Lima são alguns dos nomes em destaque.


Símbolo máximo da música brasileira, o samba é o grande cartão de entrada para a nossa cultura, com influências dos principais grupos étnicos do nosso país, onde África, Europa e América se encontram. Ritmo essencialmente periférico, tendo nascido nas periferias da Bahia e se desenvolvido nos morros do Rio de Janeiro, o samba é em sua origem preto e está no nosso sangue, mente e alma, onde a máxima segue verdadeira: "Quem não gosta de Samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça, ou doente do pé."


LER: Uma história comparada da cúmbia e do samba

Mas outros ritmos periféricos, um paulista e outro carioca, substituíram a relevância do samba na denúncia de opressões sofridas pelas populações marginalizadas e também pelo seu alcance. Falo do RAP e do FUNK.