Por que o Mês Nacional da Herança Nativo Americana é tão importante?

Desde 1990 os Estados Unidos comemoram o mês de novembro como o Mês Nacional da Herança Nativo Americana (National Native American Heritage Month), trinta dias para honrar os presentes dos nossos ancestrais, celebrando os conhecimentos, tradições, língua e cultura dos nossos antepassados indígenas. Contudo, pode-se dizer que o ano de 2021 foi um ponto crucial na história da comemoração. Pela primeira vez uma mulher indígena, Deb Haaland, é a secretária do Departamento de Interiores, órgão responsável pelo gerenciamento e preservação da maior parte das terras federais e dos recursos naturais do país. Além disso, John Biden, o atual presidente, tem mostrado seu apoio à causa ambiental e indígena, além de ter preenchido o seu gabinete com diversidade, designando cargos a pessoas negras, latinas e LGBTs. Em seu discurso sobre a celebração, Biden foi bastante firme e crítico em relação à invasão das Américas. Em um trecho ele aponta: “A exploração ocidental deu início a uma onda de devastação: violência perpetrada contra as comunidades nativas, deslocamento e roubo de pátrias tribais, a introdução e disseminação de doenças e muito mais.”


Com estas informações já é possível notar a preocupação que, não apenas os Estados Unidos demonstram a respeito da causa indígena e ambiental, mas também outros países do continente americano e do mundo.


Homem jovem nativo americano com penas e roupas tradicionais indígenas norte-americanas azul branca e vermelhas
Homem indígena praticando a dança tradicional Pow wow | Foto: Laura Hamilton

Chegamos ao ano 2021, somando 529 anos da chegada dos europeus ao continente americano. Esta forma totalmente violenta e arbitrária de invasão, dizimou populações inteiras, apagou culturas, causando destruições inimagináveis tanto ao território quanto aos povos que nele habitavam. Na época da invasão o continente contava com 55 milhões de nativos, ao passo que em 1600, apenas 108 anos depois, a população foi reduzida a 50 milhões de indígenas, ou seja, 90% da população total, caracterizando o maior genocídio e etnocídio da história da humanidade. Pesquisadores da Univesity College London concluíram que com o assassinato de tantos povos e a destruição da natureza, a terra baixou sua temperatura.


Hoje a principal preocupação do mundo é a mudança climática, a preservação e o resgate da natureza, ao passo que as pessoas começam a abrir os olhos e ouvir os reais protetores da Mãe Terra, os povos indígenas. Conforme a National Geographic Brasil, os povos indígenas representam apenas 5% da população mundial, mas são responsáveis por 80% da preservação do meio ambiente. Esses dados confirmam algo que a escola teórica do Perspectivismo Ameríndio, pensada pelos antropólogos brasileiros Eduardo Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima, de que os povos indígenas concebem o mundo por uma ótica completamente diferente, onde apesar de terem desenvolvido uma forma humana e a capacidade de se comunicar com outros humanos, todos os componentes da natureza, sejam eles animais, vegetais ou minerais, compartem essa mesma origem comum entre todos os seres. Esta perspectiva levou os ameríndios, ao longo dos milhares de anos que ocupam o continente americano, a desenvolver uma consciência de que eles são parte integrante da natureza, ao contrário do europeu que chegou às Américas à procura de ouro e riquezas apropriando-se da terra ao invés de viver em comunhão com ela.


Mulheres indígenas brasileiras estampando um outdoor sobre as mudanças climáticas em Glasgow na Escócia
As líderes indígenas Célia Xakriabá, Gicéria Tupinambá e Sônia Guajajara

Esta escola teórica afirma algo que de maneira consciente ou inconsciente os habitantes do continente americano já sabiam, os povos indígenas são os verdadeiros protetores das florestas. Em 2021 também é o ano que acontece a COP26 (26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima de 2021) na cidade de Glasgow na Escócia, contanto com a participação de diversas lideranças indígenas, como é o caso das brasileiras Célia Xakriabá, Glicéria Tupinambá e Sônia Guajajara (foto acima), assim como o próprio presidente estadunidense, Joe Biden, o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, o presidente argentino Alberto Fernandez, o presidente colombiano Ivan Duque, o príncipe Charles de Gales, o ator Leonardo DiCarprio e a jovem ativista sueca Greta Thumberg. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro não compareceu ao evento. Mas como o outdoor acima defende, as verdadeiras lideranças do clima são os povos indígenas, pois são eles que realmente conhecem a natureza, não por a terem estudado, seja em bibliotecas ou em campo, mas por terem por milhares de anos convivido em harmonia com ela, e ajudado no seu desenvolvimento. Ainda assim não exista uma única cadeira para um representante indígena no evento, o que é arbitrário e excludente mostrando que em nosso mundo quem define as regras do jogo ainda são os que detém o dinheiro.


Secretaria do Departamento de Interiores indígena e presidente americano se abraçam
Deb Haaland e Joe Biden

Estas são algumas das razões que mostram a relevância para o Mês Nacional da Herança Nativo Americana nos Estados Unidos, a maior economia do mundo. Ao mostrar seu compromisso com a causa ambiental e indígena, e não apenas isso, ao designar um cargo tão importante como o de Secretaria do Departamento de Interiores a uma mulher indígena, Joe Biden ao ser o primeiro presidente estadunidense a participar das celebrações, serve de janela para o mundo mostrando que o futuro não pode ser baseado na exploração da natureza, devastação das florestas e violência contra os povos nativos, política explicitamente defendida por Jair Bolsonaro. O governo dos Estados Unido abre caminho para uma reconexão e conciliação com seus verdadeiros povos fundadores, assim como outros países vêm fazendo, com destaque à Bolívia de Evo Morales, renovando nossas esperanças para dias com justiça social e respeito à ancestralidade do nosso continente.



Leia abaixo a proclamação feita pelo presidente Joe Biden sobre a comemoração, ou leia aqui a proclamação original em inglês.




Uma Proclamação sobre o Mês da Herança Nacional dos Nativos Americanos, 2021


Os Estados Unidos da América foram fundados em uma ideia: que todos nós somos criados iguais e merecemos tratamento igual, dignidade igual e oportunidades iguais ao longo de nossas vidas. Ao longo de nossa história - embora sempre tenhamos nos esforçado para viver de acordo com essa ideia e nunca tenhamos nos afastado dela - o fato é que muitas vezes falhamos. Com muita frequência em nossa era de fundação e nos séculos seguintes, a promessa de nossa nação foi negada aos nativos americanos que viveram nesta terra desde tempos imemoriais.


Apesar de uma história dolorosa marcada por políticas federais injustas de assimilação e extermínio, os povos indígenas americanos e nativos do Alasca perseveraram. Durante o Mês da Herança Nacional dos Nativos Americanos, celebramos as incontáveis ​​contribuições dos povos nativos do passado e do presente, honramos a influência que eles tiveram no avanço de nossa nação e nos renovamos em defender a confiança e as responsabilidades do tratado, fortalecendo a soberania tribal e avançando a auto-determinação tribal.


A pandemia COVID-19 destacou e exacerbou as desigualdades preexistentes enfrentadas pelas Nações Tribais. No início da pandemia, os casos relatados nas comunidades nativo americanas eram mais de 3 vezes a taxa de americanos brancos; em alguns estados, vidas de nativos americanos foram perdidas a uma taxa 5 vezes maior que a parcela da população. Mesmo tendo suportado um fardo desproporcional durante a pandemia, as Nações Tribais têm sido modelos de resiliência, determinação e patriotismo - implementando estratégias de mitigação essenciais, como testes e priorização da vacinação de comunidades tribais em altas taxas para salvar vidas. Por tudo isso, as Nações Tribais utilizaram com eficácia as ferramentas de autogoverno Tribal para proteger e liderar suas comunidades, estabelecendo um padrão a ser seguido por todas as nossas comunidades.


Nossa nação não pode cumprir a promessa de nossa fundação enquanto persistirem as desigualdades que afetam os nativos americanos. Minha administração está comprometida em promover a igualdade e as oportunidades para todos os indígenas americanos e nativos do Alasca e em ajudar as nações tribais a superar os desafios que enfrentaram devido à pandemia, mudança climática e falta de infraestrutura suficiente de uma forma que reflita seu relacionamento político único .


Como ponto de partida, o Plano de Resgate Americano representou a legislação de financiamento mais significativa para o país indígena na história de nossa nação - o maior investimento federal único em comunidades nativas de todos os tempos, com US $ 20 bilhões em financiamento direto para ajudar os governos tribais a combater e emergir do Crise do COVID-19. Por meio do Acordo Bipartidário de Infraestrutura e minha estrutura Build Back Better, meu governo está pressionando por uma forte participação tribal para ajudar a construir o futuro de energia limpa de nossa nação, implantar água limpa e internet de alta velocidade em todas as casas e investir em famílias, empresas, empregos e comunidades indígenas.


Na minha primeira semana no cargo, também assinei um Memorando Presidencial comprometendo minha administração com o cumprimento de nossas responsabilidades federais e de tratado, a respeitar a autogovernança Tribal e conduzir consultas regulares, significativas e robustas com as Nações Tribais em uma ampla variedade de questões de política. Juntos, estamos implementando uma abordagem de todo o governo para capacitar as Nações Tribais em seus esforços para alcançar a autossuficiência política e econômica, aumentar a resiliência climática e proteger sua soberania territorial. Para elevar ainda mais as vozes dos nativos americanos em minha administração, reiniciei o Conselho da Casa Branca sobre Assuntos Nativos Americanos no início deste ano. Foi uma das maiores honras da minha vida nomear uma das líderes mais notáveis ​​de nosso país, Deb Haaland do Pueblo de Laguna, para servir como Secretária do Interior dos Estados Unidos - a primeiro nativo americana na história de nossa nação a servir no gabinete.


Durante o Mês da Herança Nacional dos Nativos Americanos, também homenageamos nossos veteranos e membros do serviço militar nativos americanos que corajosamente serviram e continuam a servir em nossas Forças Armadas - incluindo os corajosos Locutores do Código dos Nativos Americanos na Primeira e Segunda Guerra Mundial. Por mais de 200 anos, os nativos americanos defenderam nosso país durante todos os grandes conflitos e continuam a servir a uma taxa mais elevada do que qualquer outro grupo étnico na nação. Por causa de sua abnegação, cada geração de americanos recebe o precioso presente da liberdade - e temos uma dívida de gratidão para com cada um deles e suas famílias por seu sacrifício e dedicação.


As raízes dos indígenas americanos estão profundamente arraigadas nesta terra - uma pátria amada, nutrida, fortalecida e defendida com honra e convicção. Este mês e todos os meses, honramos as culturas e contribuições preciosas, fortes e duradouras de todos os nativos americanos e renovamos o compromisso de cumprirmos a promessa plena de nossa nação juntos.


AGORA, PORTANTO, eu, JOSEPH R. BIDEN JR., Presidente dos Estados Unidos da América, em virtude da autoridade conferida a mim pela Constituição e as leis dos Estados Unidos, proclamo novembro de 2021 como Patrimônio Nacional dos Nativos Americanos Mês. Exorto todos os americanos, bem como seus representantes eleitos nos níveis federal, estadual e local, a observar este mês com programas, cerimônias e atividades apropriadas, e a celebrar 26 de novembro de 2021, como o Dia do Patrimônio dos Nativos Americanos.


EM TESTEMUNHO DO QUE, estabeleço minhas mãos neste dia vinte e nove de outubro, do ano de nosso Senhor dois mil vinte e um, e da Independência dos Estados Unidos da América, duzentos e quarenta e seis.


JOSEPH R. BIDEN JR.