Uma história comparada da cúmbia e do samba

Atualizado: Nov 15

Tendo como base as minhas viagens — um tanto antropológicas e etnográficas — pela América Latina, devo dizer que nenhum país do continente, dos quais eu visitei até agora, se assemelha tanto ao Brasil como a Colômbia, e vice-versa. Seja por sua gente cordial e amorosa, sua comida, ambas com base em arroz, feijão, carne, salada e frutas (com algumas especificidades, se no Brasil a mandioca é o substituto mais comum ao arroz, na Colômbia esse papel fica ao milho), suas paisagens com cidades ao meio da natureza (Rio de Janeiro e Armênia), metrópoles gigantescas (São Paulo e Bogotá), cidades inovadoras e organizadas (Curitiba e Medelim), estados queridos por todos os habitantes do país (Minas Gerais e Santander), urbes com maioria da população afro-descendente (Salvador e Quibdó), parques nacionais esplendorosos e bem conservados (Chapada dos Veadeiros e Parque Tairona). Enfim, muitas são as similaridades entre os vizinhos, mas hoje pretendo focar na música, mais especificamente no samba e na cúmbia, símbolos nacionais de cada um deses países.


Ambos os ritmos têm suas origens relacionadas aos povos afro-descendentes, ainda que a origem da cúmbia seja debatida e por vezes atribuída aos povos originários do território colombiano e panamenho (o Panamá era parte integrante da Colômbia até a construção do canal), porém eu como pseudo-antropólogo, gosto de imaginar que as coisas mais belas se originam a partir da contribuição de vários grupos étnicos, então prefiro acreditar que a cúmbia é uma criação tanto dos afro-colombianos quanto dos indígenas, que viviam na mesma região caribenha na época do seu desenvolvimento.


Mulheres e crianças dançando cúmbia na rua
Grupo tradicional de cúmbia

No caribe colombiano, ainda durante a colônia, a cumbia surge entre os povos afro-colombianos, indígenas (tambores, gaitas, maracas, guache e o baile) e também hispânicos (com a poética da língua espanhola). Esta mescla é o que configura a alma tricolor colombiana, e por esta razão a cumbia é o gênero musical que define a cultura desse país através da música e da dança. A etimologia da palavra cumbia vem do banto e significa baile.


Para quem já estudou sobre a origem do samba, já se nota grande semelhança entre os dois ritmos e origens, não é mesmo? Então vamos ver um pouco sobre a história do ritmo brasileiro.


Homem toca o pandeiro em uma roda de samba
Sambista em uma roda de samba

Embora o primeiro samba tenha sido gravado 1916, composta por Donga, 'Pelo Telefone' não pode ser considerado a origem deste ritmo. Historiadores afirmam que os encontros de pessoas escravizadas deram a forma ao que hoje consideramos como samba. As rodas, muito comuns entre os povos africanos, são um espaço de horizontalidade onde todos são vistos e podem ver aos demais, e nesse espaço de amizade e comunhão, os escravizados dançavam em especial a umbigada e também jogavam capoeira, outro símbolo da cultura brasileira. Quem tiver a oportunidade de vir ao Brasil não pode deixar de ir a uma roda de coco ou a um jongo, manifestações africanas que lembram muito uma roda de samba. Assim como a cúmbia, o samba ganhou sua identidade com a poesia da língua portuguesa e uma certa melancolia da alma portuguesa.



A música composta por Baden Powell, Vinícius de Moraes e Marcelo Peixoto traduz bem esse encontro dos dois povos:


Porque o samba nasceu lá na Bahia

E se hoje ele é branco na poesia

Se hoje ele é branco na poesia

Ele é negro demais no coração


Samba da Benção


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A GEOGRAFIA DA CUMBIA


Assim como no Brasil, os afro-descentes chegaram às terras americanas forçadamente, e desembarcaram nos grandes portos do continente. No caso do território colombiano, os povos escravizados chegaram principalmente no porto de Cartagena de Índias, uma cidade com grande expressividade negra até agora. Logo, os afro-colombianos estão em maior concentração nas cidades da costa atlântica, do caribe e do pacífico, e em algumas cidades próximas como Medelín e Cali. Quem passeia por Cartagena encontra forte correspondência com as cidades de Salvador e Olinda, por conta das casinhas coloniais coloridas, frequentes manifestações artísticas afro-latinas pela cidade e também pelas próprias mulheres vestidas em trajes floridos ou multicores e com uma bacia com frutas na cabeça (vender alimentos tropicais foi também na Colômbia uma atividade aliada na emancipação e sustento das mulheres negras).

Se no Brasil, nós as chamaríamos de 'as baianas', na Colômbia elas são as 'mujeres palenqueras'. Palenque é o equivalente a quilombo para os nossos vizinhos.


Duas mulheres palenqueras andando nas ruas de Cartagena com frutas na cabeça
Mulheres palenqueiras em Cartagena


A GEOGRAFIA DO SAMBA


O Rio de Janeiro foi a capital do Brasil durante um longo período (1763-1960), sendo inclusive capital do Reino de Portugal durante 7 anos. Pode-se imaginar então que o Rio de Janeiro representava um lugar de grande movimentação política e com grande riqueza (obviamente concentrada apenas nas mãos dos europeus e seus descendentes, pois os ex-escravizados não tiveram nenhuma garantia na participação integral da sociedade brasileira após a abolição da escravidão), foi em meio a este turbilhão que o samba tomou forma. Como vimos no trecho do Samba da Benção, o samba surgiu realmente na Bahia, mas foi no Rio de Janeiro, capital cultural do Brasil durante o século XX, que o ritmo revelou nomes inesquecíveis como Pixinguinha, Elizeth Cardoso, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Neguinho da Beija-Flor, Arlindo Cruz, Alcione, Clara Nunes, Jorge Aragão, Jovelina Pérola Negra, Clementina de Jesus. Embora nem todos fossem cariocas, eles alcançaram grande sucesso lançando a sua carreira nessa cidade. Da mesma maneira que Cartagena, o Rio também é uma cidade com expressiva população negra, um verdadeiro caldeirão que, ao mesmo tempo, evidencia toda a criatividade, resiliência e beleza do povo negro, expõe a violência que esta parcela da população brasileira é sujeita pela mão do Estado.


Menino de calçao shorts esperando a onda em uma praia do Rio de Janeiro com o morro atrás
Menino curtindo uma praia no Rio

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O SAMBA E A CÚMBIA HOJE


Como já mencionado anteriormente, ambos o samba e a cúmbia são de origem afro-latinas e ganharam sua poesia através das línguas latinas. Outras modificações foram acontecendo ao longo do tempo, até que os ritmos caíssem no gosto de toda a população e também passasse a ser apreciado em outros países. Muitos ritmos desenvolvidos pelos afro-descendentes do continente americano sofreram (alguns ainda sofrem) muito preconceito por parte da população branca. Assim sendo, esses ritmos se viram obrigados a passar por uma nova roupagem para serem aceitos na sociedade. No caso da cumbia, ela só passou a ser apreciada pelas elites das cidades mais importantes, em especial Bogotá, quando Lucho Bermúdez, orquestrou o gênero com toques de jazz e big band, passando assim a ser tocada nos grandes bailes desses centros financeiros e políticos. Totó la Momposina segue sendo a grande intérprete da cumbia colombiana, permanecendo fiel às raízes ancestrais do gênero. Foi Carlos Vives, no entanto, que resgatou essas raízes ancestrais e tornou a cúmbia nacionalmente popular, fazendo com que o ritmo fosse ainda difundido em outros países do continente latino-americano, como o Peru, o México, o Chile e a Argentina. Hoje, músicos da nova geração da cumbia como Li Saumet, Lila Downs, Gepe e Miss Bolívia acrescentam elementos eletrônicos ao ritmo tornando-os atraentes para os jovens.


O samba, por sua vez, sempre teve sua melodia relacionada à imagem do malandro, como alguém que é preguiçoso e comete pequenos crimes. Verdade é que a figura do malandro representa aquele que tem o 'jeitinho brasileiro' de sobreviver em meio às adversidades e dificuldades que a população sofre, em especial o povo negro. Desta forma, o malandro representa então a astúcia e aquele que gosta de curtir os prazeres da vida. Os primeiros sambistas consagrados nacionalmente na época de ouro da radiodifusão foram Noel Rosa, Cartola e Nelson Cavaquinho, sendo Noel Rosa oriundo da classe média carioca. As vestimentas do samba passaram a ser formais (algo parecido com o que aconteceu com o jazz e o tango, outros dois ritmos de origens afro-americanos) para serem bem-vistas pela alta-sociedade. Foi Carmen Miranda, uma portuguesa muitíssimo brasileira, que divulgou o samba pela primeira vez em âmbito internacional, em filmes de Hollywood. Com uma vestimenta que até hoje é icônica, vestidos belíssimos e muitas frutas na cabeça, exaltando o solo fértil de nossas terras, Carmen foi fundamental na aceitação visual do samba também. Com o passar dos anos, outras vozes imprescindíveis para a história do samba surgiram. São elas: Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Maria Bethânia, Clara Nunes, Gal Costa, Lecy Brandão, Beth Carvalho e Alcione. E também os intérpretes e compositores masculinos, Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, João Nogueira, Jorge Aragão, Paulinho da Viola. Na atualidade o samba também passou por modificações como a prima colombiana, com influências de música negra americana e até pop, mas sempre mantendo as raízes ancestrais do gênero e abordando temas da realidade das periferias, do povo preto, e também falando de amor e amizade. Os intérpretes do gênero mais conhecidos na atualidade são Diogo Nogueira, Roberta Sá, Maria Rita, Aline Calixto, Teresa Cristina, Mumuzinho, Ferrugem, Renato da Rocinha, Mariene de Castro, Mart'nália e Dudu Nobre.


O QUE ESPERAR DO FUTURO DOS GÊNEROS


As modificações que a cúmbia e o samba têm passado com o tempo representam nada mais do que a movimentação da sociedade. Com o passo em que a tecnologia avança, para manter os gêneros relevantes para as novas gerações, é importante que eles sejam interessantes para as suas realidades. Uma geração essencialmente tecnológica, tem acesso a diversos estilos musicais do mundo todo, além de muitos estímulos audiovisuais a cada instante. Logo, gêneros ancestrais que se adaptem a esta realidade, tem mais possibilidade de ser apreciada pelos jovens do século XXI. Ao mesmo tempo, cultivar as raízes ancestrais dos gêneros é imprescindível, visto que além de ser a história do nosso povo através de música, ainda se mostra enormemente relevante para os dias atuais e os desafios que encontram nossos países e nossa gente, e só conseguiremos superá-los quando nos conhecermos melhor. E a cúmbia e o samba são aulas de história contadas com profundidade e pelo tambor e o corpo.


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